Ontem, um dia bonito em Berlim, resolvi com o Tim visitar um KZ. KZ é a abreviatura para Konzentrazionslarger - Campos de Concentração. Há 3 anos morando aqui na Prússia, nunca tinha tida a curiosidade, ou a coragem de visitar esse KZ. Primeiro imaginava ser muito longe de Berlim, e depois, a cidade de Oranienbrugo, onde o KZ fica localizado, é famosa por ataques neo-nazistas, ataques que o Tim se recusa a acreditar acontecerem tão perto de Berlin. Enfim...Lá fomos nós.
A viagem foi tao curta que me espantei. Em menos de 30 minutos estávamos na estacao de trem de Oranienburgo. E, mais alguns kilômetros de caminhadas, estávamos na porta do KZ. Fiquei imaginando como numa rua urbanizada, cheia de casinhas bem cuidadas, que muito bem poderiam ser de uma das nossas avós, guardava, no número 22, a entrada para um lugar absolutamente monstruoso.
A entrada principal, muito bem arquitetada e moderna, guarda um centro de informações para turistas, assim como um pequeno resumo do que foi o campo, ilustrado com algumas fotos e depoimentos. Além disso, há uma pequena livraria onde obras sobre o tema podem ser encontradas.
Alguns metro a diante, caminhando por uma rua toda arborizada, encontramos a entrada principal. O portão, feito de ferro, como em outros campos, traz o slogan do local: Arbeit Macht Frei (Trabalho liberta). Ao passar pelo portão, me deparo com uma enorme área vazia, apenas delimitada pelos muros laterais. Nesse local, eram feitas as chamadas diárias, para contagem e checagem dos confinados. O silêncio do local assusta. Mesmo com turistas, o silêncio ainda fala mais alto. E um pouco perturbador.
Como já estive em outro campo anteriormente, muito do que vi lá não me surpreendeu, mas pela primeira vez fui a um campo que também era de extermínio, a morte ali era planejada. Ao visitar um dos Barrakes - nome para as construcoes dentro do campo - o dos confinados enfermos, choquei-me ao ler sobre as experiências realizadas ali por médicos, que usavam os presos como cobaias. Mas isso todos nós sabemos que ocorreu durante esse período. O que eu não sabia, é que a maioria dos médicos no pós guerra continuou exercendo a medicina. A punicão para esses "médicos" não aconteceu. Uns até continuaram a carreira ensinando em Universidades alemãs.
Bem, é muito triste saber que esse país perdoou esses criminosos, ou melhor, alguns nem mesmo foram indiciados. Às vezes me pergunto o porquê de ainda morar aqui. Eu sei que esses 70 anos já foram, e que muitos alemãs envergonham-se do passado, mas há algo na essência desse povo que me intriga. Todos sabiam do que ocorria, e ninguém fez nada. Isso é algo difícil aceitar.
Eu sei que Hollywood esgotou o tema, e que muitos acham irrelevante voltar a falar no assunto. Desculpas aos que assim pensam, eu não acho. Acho esse assunto inesgotável.
Hoje aguardo a minha licença para aqui exercer a Medicina, e me envergonho de saber que o mesmo órgão responsável por me concedê-la, é o mesmo órgão que permitiu que esses assassinos continuassem a exercer a Medicina.
Bom, esse foi mais um domingo na Prússia. Triste.