quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Medo


Ontem recebi a notícia de que eu realmente vou comecar no meu primeiro emprego como médico na Prússia. Isso nao parece assustador?!? E é. Hoje eu acordei com aquela sensacao de primeiro dia de escola, sabe?! Quando temos uns 9, 10 anos e somos obrigados a mudar de escola? Você se sente desprotegido, sem amigos, sozinho. É exatamente assim que me sinto. Bem, sei que eu preciso passar por isso, é inevitável toda essa mistura de sensacoes todas juntas ao mesmo tempo. As vezes quero desaparecer, as vezes ficar no sofá e nao fazer nada, ligar dizendo que nao quero mais, estudar como um louco, e mostrar pra eles como no Brasil também fazemos uma boa Medicina, ou apenas nao fazer nada, ficar parado, mirando a parede sem me mover. Acredito que exista uma razao pra tudo isso. O alemao nao é a minha lingua mae e, quando se aprende uma língua nova com mais de 30 anos, é complicado ter confianca. Embora todos me elogiem por falar a língua germânica bem pra quem se mudou pra cá há 3 anos, eu, aqui entre nós, acho o meu alemao uma M...

Me pergunto se ter saído do Brasil foi de verdade uma boa coisa. Acho que sim. Acho que nao. Acho que agora eu posso comecar a avaliar esse processo. Agora estou casado, trabalho como médico, tenho dois gatos, seguro social, fundo de aposentadoria, e todas essas outras siruacoes que te fazem se enquadrar numa determinada sociedade. Se agora o meu ponto de vista em relacao a Prússia vai mudar? Com certeza sim. E dificil avaliar quando se é estudante, ou turista, ou em processo de legalizacao trabalhista. Tudo é demorado, ruim, assustador.

Agora sou um "prússio". Ai! As vezes é estranho ouvir isso, porque nao me vejo como um. Nao quero me trasformar em um. Um brasileiro se tornar um filho da Prússia, é quase como um tricolor se transformar em rubro-negro. Traduz paradoxo. Ok, se é que um dia eu fui de verdade um brasileiro autêntico...

Bom, tenho ainda alguns dias pra poupar minhas energias, e reunir a forca necessária pra comecar. A primeira impressao do hospital foi excelente. As pessoas foram educadas e gentis. Espero que nos posts seguintes a minha opiniao continue a mesma.

Vou mantê-lo informado.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Um dia no KZ!


Ontem, um dia bonito em Berlim, resolvi com o Tim visitar um KZ. KZ é a abreviatura para Konzentrazionslarger - Campos de Concentração. Há 3 anos morando aqui na Prússia, nunca tinha tida a curiosidade, ou a coragem de visitar esse KZ. Primeiro imaginava ser muito longe de Berlim, e depois, a cidade de Oranienbrugo, onde o KZ fica localizado, é famosa por ataques neo-nazistas, ataques que o Tim se recusa a acreditar acontecerem tão perto de Berlin. Enfim...Lá fomos nós.

A viagem foi tao curta que me espantei. Em menos de 30 minutos estávamos na estacao de trem de Oranienburgo. E, mais alguns kilômetros de caminhadas, estávamos na porta do KZ. Fiquei imaginando como numa rua urbanizada, cheia de casinhas bem cuidadas, que muito bem poderiam ser de uma das nossas avós, guardava, no número 22, a entrada para um lugar absolutamente monstruoso.

A entrada principal, muito bem arquitetada e moderna, guarda um centro de informações para turistas, assim como um pequeno resumo do que foi o campo, ilustrado com algumas fotos e depoimentos. Além disso, há uma pequena livraria onde obras sobre o tema podem ser encontradas.

Alguns metro a diante, caminhando por uma rua toda arborizada, encontramos a entrada principal. O portão, feito de ferro, como em outros campos, traz o slogan do local: Arbeit Macht Frei (Trabalho liberta). Ao passar pelo portão, me deparo com uma enorme área vazia, apenas delimitada pelos muros laterais. Nesse local, eram feitas as chamadas diárias, para contagem e checagem dos confinados. O silêncio do local assusta. Mesmo com turistas, o silêncio ainda fala mais alto. E um pouco perturbador.

Como já estive em outro campo anteriormente, muito do que vi lá não me surpreendeu, mas pela primeira vez fui a um campo que também era de extermínio, a morte ali era planejada. Ao visitar um dos Barrakes - nome para as construcoes dentro do campo - o dos confinados enfermos, choquei-me ao ler sobre as experiências realizadas ali por médicos, que usavam os presos como cobaias. Mas isso todos nós sabemos que ocorreu durante esse período. O que eu não sabia, é que a maioria dos médicos no pós guerra continuou exercendo a medicina. A punicão para esses "médicos" não aconteceu. Uns até continuaram a carreira ensinando em Universidades alemãs.

Bem, é muito triste saber que esse país perdoou esses criminosos, ou melhor, alguns nem mesmo foram indiciados. Às vezes me pergunto o porquê de ainda morar aqui. Eu sei que esses 70 anos já foram, e que muitos alemãs envergonham-se do passado, mas há algo na essência desse povo que me intriga. Todos sabiam do que ocorria, e ninguém fez nada. Isso é algo difícil aceitar.

Eu sei que Hollywood esgotou o tema, e que muitos acham irrelevante voltar a falar no assunto. Desculpas aos que assim pensam, eu não acho. Acho esse assunto inesgotável.

Hoje aguardo a minha licença para aqui exercer a Medicina, e me envergonho de saber que o mesmo órgão responsável por me concedê-la, é o mesmo órgão que permitiu que esses assassinos continuassem a exercer a Medicina.

Bom, esse foi mais um domingo na Prússia. Triste.